"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana.
Mas no que diz respeito ao universo, ainda não tenho certeza absoluta"

Albert Einstein

A Geração Testosterona
Por Ricardo Guerreiro, Março de 2016

A nossa sociedade está cada vez mais inerte, obesa e estressada.  Doenças como diabetes, hipertensão e depressão já fazem parte do nosso vocabulário comum. E a nossa saudável alimentação caseira há muito tempo foi substituída pelo fast food e comida a quilo.  Já há gerações que nem sabem mais comer com garfo e faca, pois as suas refeições diárias são feitas em pé de frente ao balcão de uma lanchonete. 

Por outro lado, a massificação da mídia nos impõe padrões estéticos e de comportamento que todos nós sonhamos ter: Homens e mulheres com corpo atlético, sarado, barriga de tanquinho, esbanjando saúde e virilidade.  Porém a realidade da população em geral está vinculada ao ganho de peso, cansaço, indisposição, falta de energia, memória ruim e falta de libido.   

A medicina tradicional sabe o caminho da redenção: dieta, exercícios e mudar o estilo de vida!  

Sem esforço não há recompensa. 

Porém, alguns médicos "negociantes de medicina" descobriram um atalho para se atingir o paraíso.  E estão ficando muito ricos com isso:   A Testosterona!

Testosterona é sem dúvida o hormônio do momento. O elixir mágico que promete trazer virilidade aos homens barrigudos e glamour às mulheres desengonçadas. Adeptos eufóricos chamam essa revolução hormonal de "Medicina Moderna". 

A testosterona é um hormônio sexual masculino.  Porém, seu uso em mulheres tem crescido assustadoramente no Brasil. A
 motivação é quase sempre estética
: diminuir gordura, aumentar musculatura e ficar com um corpo “escultural”. Porém, quase sempre, essa mágica vem acompanhada por uma desagradável masculinização além de outros efeitos adversos.   



O "T" da testosterona é o "T" do tesão, o "T" da transformação, o  "T" do "Tudo posso". 

Médicos e clínicas anunciam nas mídias que sem testosterona a vida não tem graça. E que a reposição é fundamental, para homens e também para mulheres. 

Basta o cidadão ou cidadã apresentar sintomas de queda de libido ou cansaço que aparece algum médico prescritor de hormônios para dar a receita mágica: Testosterona.  O apelo é forte.  

E outra novidade da "medicina moderna" vem em formato de pequenos tubos de silicone:  Os implantes Hormonais.  Cuja principal vantagem é que o paciente não precisa se preocupar em controlar a quantidade de pílulas que deve tomar.  O Implante faz isso automaticamente injetando pequenas dosagens na circulação sanguínea por longos períodos.   

Para os médicos as vantagens são ainda maiores, pois com a massificação dos implantes hormonais basta montar uma clínica luxuosa em um bairro chique e contratar uma assessoria de marketing competente para expor seus tratamentos milagrosos na mídia,  para em breve ver a sua sala de espera lotada de pessoas querendo ficar igual ao galã ou a heroína da novela,  e prontas para gastar 6 mil reais em média por um procedimento que não irá levar mais do que 15 minutos.   

E depois é só mandar essas pessoas para casa e orientá-las a retornar em 1 ano para repor o implante e então faturar os 6 mil reais novamente.   

Como os tratamentos hormonais tradicionais demandam que o paciente retorne a clínica com frequência, montar um "fast delivery" de implantes hormonais é muito mais vantajoso e lucrativo, pois a comercialização em série destes tratamentos gera ganhos de escala excelentes para os "negociantes de medicina". 

As duas histórias abaixo são um exemplo, do ponto de vista do paciente que consome esses produtos.

A SURPREENDENTE HISTÓRIA DE JESSY VAREJÃO. 

Jessy Varejão era um sujeito bacana, cinquentão, vida tranquila, corpinho estilo "pera",  barriga e pneus pulando pra fora do cinto,  algumas mulheres até que olhavam para ele na rua, mas Jessy Varejão não sentia segurança para se aproximar delas.  Se comparava com os rapazes saradões e se achava um fracote desengonçado. Precisava dar um jeito nisso.

Jessy Varejão então se inscreveu na academia do bairro.  No primeiro dia do treino de crossfit ele saiu morto e disse que não iria aguentar aquilo. Mais tarde na mesa de um boteco tomando cerveja e comendo pururuca com os seus amigos ele ouviu falar no "Chip da Força" pela primeira vez.


No dia seguinte Jessy Varejão correu para se consultar com um médico prescritor de hormônios. Após realizar o exame da saliva o médico lhe disse que seus níveis de testosterona estavam baixos. Que seus testículos já não produziam a quantidade suficiente de testosterona e que ele precisa repor o hormônio.  

O tratamento consistia em implantar um tubinho chamado  G7 sob a pele do bumbum do Jessy. O médico garantiu que  seria um tratamento simples com anestesia local e sem risco algum para sua saúde,  pois seriam utilizadas as substâncias mais avançadas da "medicina moderna", os tais "hormônios bioidênticos" que não trazem efeitos colaterais pois possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos.  O implante iria liberar pequenas doses de hormônios gradualmente durante 1 ano,  e os resultados seriam fantásticos.  Os 6 mil reais não significavam nada frente aos benefícios que Jessy iria experimentar.

E então Jessy sacou o dinheiro que tinha na poupança e investiu no sonho de ficar com o corpo igual ao ator bombado dos "Velozes e Furiosos".

O "Chip da Força" fez milagres!   Depois do implante Jessy Varejão virou um danado!  Contratou um personal trainer e se transformou no malhador mais feroz na academia, um verdadeiro T-Rex (com "T" maiúsculo)!  

O saradão Jessy  se sentia orgulhoso e satisfeito com a sua máscula virilidade.


Algum tempo depois.... 


O super-homem começou a sentir dificuldade para fazer xixi.  Muito a contragosto Jessy Varejão foi ao proctologista e fez pela primeira vez o exame de toque.  Preocupado o médico ainda realizou outros exames.

Diagnóstico: câncer agressivo na próstata. 


Radioterapia, quimioterapia, meses de tratamento mas nada resolveu. Jessy teve que se submeter a um procedimento de prostatectomia radical
.  Durante esse procedimento médicos introduziram um aparelho no ânus do outrora bombadão para extrair a sua próstata, além de alguns tecidos à sua volta, incluindo as vesículas seminais.  


Com o procedimento Jessy ficou impotente, e  pelo resto de sua vida irá precisar da ajuda de medicamentos para ter ereções. O agora magrelo Varejão não quis mais saber de excessos. Cortou o álcool, virou vegetariano e adotou um estilo de vida bem light. 

Mas Jessy ficou feliz, "graças a deus eu estou vivo!".  Apesar de ter que de conviver com o pavor do câncer voltar. 

Jessy Varejão aprendeu a valorizar o que Deus havia lhe dado de graça:  a saúde.


A HISTÓRIA DE RAYMUNDANNE, A RAINHA DOS SELFIES.

Raymundanne sempre foi conhecida como a boazuda do bairro,  mas mesmo com um corpo maravilhoso ela não se sentia satisfeita com suas coxas. As achava finas e decidiu se consultar com um comerciante de medicina famoso, aquele da clínica chique no bairro mais elegante da cidade.  

Raimundanne  queria que suas coxas ficassem iguais a da "Mulher Jaca". 

O rei do hormônio faturou oito mil reais ao vender para Raymundanne um "chip da força" ("implante subcutâneo de silicone contendo cerca de 50 mg de um coquetel de hormônios bioidênticos que libera doses graduais na circulação sanguínea sem risco algum a saúde").   

A testosterona fez efeito e alguns meses depois a nossa heroína virou uma gostosona com bundão e coxão enormes.  
Apesar da sua voz ter ficado meio esquisita, seu gogó um pouco saltado pra fora, seu suor constante ter um cheiro meio desagradável e ela ter que se acostumar a se depilar toda hora para retirar os "pelos inconvenientes". 

Mas isso pouco importava para Raymundanne! A saradona se rejubilava ao ver sua página do facebook  inundada de elogios dos seus milhares de seguidores, e ela se achava a poderosa. 

Algum tempo depois..... 

Um dia, em frente ao espelho, Raymundanne apalpou as mamas e sentiu algo diferente e foi imediatamente se consultar com seu médico,  o doutor preocupado pediu a opinião de um oncologista.  Diagnóstico: tumor maligno nas mamas.  Nas duas! 

Lá se foram meses de radioterapia e quimioterapia tomando remédios intragáveis. Usando uma peruca pois todos os seus cabelos caíram. A coitada sumiu dos holofotes. Raymundanne fez tudo que o oncologista mandou, porém os tumores continuavam lá, imbatíveis.  As mamas doentes ficaram disformes, bem longe do ideal que ela sonhava para seu corpo.


Aí o jeito foi se submeter a temida mastectomia dupla.  E nossa ex-sarada teve que extrair os dois seios. 

Nossa heroína passou a viver todos os dias durante o resto de sua vida tomando remédios e convivendo com o pavor do câncer voltar. 

Porém Raymundanne estava feliz, pois sobreviveu ao câncer e finalmente aprendeu a valorizar o que Deus havia lhe dado de graça:  a saúde.


Você acha que essas duas histórias fictícias são engraçadas?  

Pode até ser, pois tanto Jessy quanto Raymundanne  tiveram muita sorte e sobreviveram à estupidez dos tratamentos com implantes hormonais. 

Já a minha esposa Lívia,  ela infelizmente está morta. E dessa história nem eu nem ninguém da minha família acha graça alguma. 

O ser humano evolui,  se não for pelo amor,  será pela dor.  Mas ele evolui.

Inúmeros são os "negociantes de medicina" e clínicas que prometem "benefícios extraordinários" com implantes hormonais. Influenciando milhares de pessoas a investir nesse tipo de procedimento em busca de saúde e de um corpo bonito.

Porém, o que poucas pessoas sabem, é que se trata de uma terapia extremamente complexa e perigosa,  informações sobre os reais riscos e efeitos colaterais são frequentemente omitidos ou até mesmo negados por quem realiza esse procedimento. Prometem milagres sem riscos, usam a medicina para ganhar dinheiro à custa da saúde dos pacientes.

Os órgãos de saúde e entidades médicas sérias alertam e tentam combater o uso banal e indiscriminado desses tratamentos. Mas, infelizmente, devido às brechas na legislação, o Brasil segue como meca dos implantes hormonais, e milhares de pessoas arruínam a sua saúde todos os anos, legando para si distúrbios gravíssimos que comprometem a sua qualidade de vida, ou pior, que lhes tiram a própria vida.

Essa é uma triste realidade de um país cuja cultura supervaloriza a beleza plástica e considera velhice um estorvo. Um país onde a medicina de boa qualidade é restrita a poucos e onde a justiça é inerte perante os absurdos cometidos pelos inescrupulosos "negociantes de medicina". 

Um país onde tratamentos experimentais perigosos são comercializados como se fossem algo banal e sem risco algum a saúde.  E onde a ética na medicina muitas vezes dá lugar a ganância e a desumanidade.



NÃO CAIA NESSA FURADA 
A SUA SAÚDE NÃO TEM PREÇO